Carregando...
Evy Oliver
Mulheres e mutações climáticas: “Criando laços, um Nós, para fortalecer redes entre mulheres de povos e comunidades tradicionais”, esse foi o tema que norteou o II Seminário do Observatório Popular de Violências e Pela Vida das Mulheres de Povos e Comunidades Tradicionais de Sergipe (OPOPVida/UFS), realizado em parceria com o Movimento das Marisqueiras de Sergipe (MMS).
Ocorrido entre os dias 26 e 29 de maio, o Seminário é resultado das ações construídas pelo Observatório ao longo dos últimos anos. Através de rodas de conversa, palestras, performances e oficinas, o Seminário destacou a defesa das vidas e corpos-territórios como pilares da luta pela justiça climática e de gênero, tendo como um dos seus eixos formativos, a política da amizade e a importância dos vínculos nas lutas coletivas.
Para Luísa Horn, pesquisadora de Pós-Doutorado do Observatório, a existência de uma rede de mulheres é o caminho para combater as violências às quais mulheres e seus territórios estão expostos. “Quanto mais a gente possibilita que as mulheres conversem, estejam juntas e criem laços significativos entre elas, mais a gente previne e fortalece que as mulheres possam se sentir mais fortes para lutar, sair de situações de violência e resistir às violências territoriais. Por isso que a amizade para nós é muito importante”, explica.
O II Seminário reuniu marisqueiras de Sergipe, profissionais da saúde e do direito, artistas e agentes culturais, parlamentares e representantes de órgãos ambientais, bem como professoras e pesquisadoras do Rio Grande do Sul, anfitriãs do Intercâmbio “Mulheres das Águas” realizado em 2024, na cidade de Porto Alegre, em parceria com Movimento das Marisqueiras de Sergipe (MMS). Leia mais aqui.
Para Lívia Cardoso, coordenadora acadêmica do Observatório e professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS), um dos papéis do Observatório é intermediar as demandas das mulheres com as políticas públicas. “As mulheres sabem anunciar o que querem e como querem a política. É aí que o Observatório faz essa mediação. Pensando a política com as mulheres, materializando a política e entregando aos representantes”, destaca.
Do mangue à roda
A abertura do Seminário foi realizada com a performance “Geografias de uma mulher em transe”, atividade cênica protagonizada por Kelly Caldas, atriz, advogada e doutora em Educação. Unindo arte e política, a performance trouxe para o corpo cênico as intersecções de violências às quais mulheres são afetadas. Para Kelly, a performance reforça a importância da arte nas reflexões sobre violência de gênero. “Este experimento cênico atravessa as dores das tradições costuradas pelo patriarcado, suas violências cotidianas, seus silenciamentos e seus encarceramentos de vida. Unindo textos meus, ficcionais e autobiográficos, a cena não-cena pretendeu constituir um nós capaz de revisitar memórias coletivas e reinventá-las, capaz de fazer do teatro um espaço fértil para a instalação de uma comunidade de desaprendizagem, capaz de criar tempo para a experiência, a escuta e a troca entre corpos de mulheres forjadas pela luta e pela resistência em seus territórios comuns”, conta a atriz.
A programação seguiu com expressão e movimento, após a performance, as mulheres participaram da roda de abertura: “Entre mulheres, memórias, raízes e águas: um sociodrama”, conduzido por Oriana Holsbach Hadler e Bruna Andressa dos Santos Ferreira. Dedicada à reflexão sobre as vivências das mulheres no mangue, a roda de abertura refletiu sobre os territórios e as memórias afetivas da mariscagem.
Segundo Oriana Hadler, professora de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o território é algo que compõem a vida das marisqueiras e fortalece as lutas coletivas. “Diante das calamidades socioambientais, essas mulheres constroem uma contranarrativa à lógica do isolamento. Tanto para as mulheres dos rios no sul do Brasil quanto para as marisqueiras, o território (a água, o mangue, o rio) não é apenas um recurso econômico, mas parte de sua própria existência e subjetividade. Quando essas mulheres se encontram — seja no Seminário das Águas na UFRGS em 2024 ou agora em Aracaju em 2026 — elas promovem uma verdadeira insurgência dos corpos que habitam e defendem esses espaços. É a validação de que os saberes tradicionais dessas mulheres são fundamentais para pensar a justiça climática global. A articulação cria uma rede onde o compartilhamento de saberes, das dores e das estratégias de sobrevivência fortalece o tecido comunitário. Ao unirem as águas do Sul e do Nordeste, essas mulheres rompem com a lógica da vulnerabilização produzida pelas crises climáticas, demonstrando que o cuidado e a defesa dos territórios são construídos no coletivo e na resistência política”, ressalta.
Corpo e território: a circularidade de saberes
O segundo dia do Seminário foi marcado por ações formativas. O primeiro momento chamado de “Partilhas e Memórias do OPOPVida: Lançamento das cartilhas das escutadeiras”, momento o qual as marisqueiras expuseram seus aprendizados e trabalhos desenvolvidos dentro do curso. Acontecendo simultaneamente, as atividades da tarde foram divididas em oficinas temáticas, sendo elas: Oficina 1: Violência contra a mulher, bases legais e jurídicas, Oficina 2: Saúde Coletiva, Oficina 3: Escrita, poesia e rima e Oficina 4: Mulheres e mutações climáticas.
Para Cristiane Dias, marisqueira e liderança do MMS, as violações que as atravessam são diversas e partem de instâncias múltiplas: “A saúde está voltada à segurança, e quando se fala de segurança, é sobre todo tipo de segurança. Fala sobre a segurança alimentar, fala da violência contra a mulher, não somente a física e mental, mas também a territorial, a impossibilidade de acessar o seu meio de trabalho”, afirma Cristiane, moradora do povoado Muculanduba e facilitadora da Oficina Saúde Coletiva que trabalhou as práticas de saúde na perspectiva dos saberes tradicionais.
Já na oficina de Violência contra a mulher, bases legais e jurídicas, o espaço teve como objetivo refletir sobre os diversos contextos e formas de violência que afetam as mulheres de comunidades tradicionais, trazendo instâncias legais e jurídicas de proteção e cuidado para mulheres. Facilitada pela advogada e promotora legal popular, Rute Alonso, a oficina utilizou como metodologia o jogo Lugar Dela, inspirado nas histórias de mulheres que conseguiram enfrentar e sair da realidade de violação de direitos.
(2).jpg)
Oficina Violência contra Mulher | Foto: Bruna Noveli
Os espaços das oficinas funcionaram como construtores e amplificadores de saberes, desde a primeira mulher que chega e fala, até a que ouve e acolhe, entendendo e trazendo as múltiplas perspectiva de saúde, é o que nos conta Chenya Coutinho, enfermeira especialista em saúde mental.
“Hoje a gente trouxe para a oficina de saúde a perspectiva de circularidade, de encontro de saberes, reconhecendo os saberes da família e também da ancestralidade na perspectiva religiosa, as que vieram antes, daquelas que a gente nem lembra mais, mas que a gente precisa lembrar dessas outras formas de cuidado. A gente pôde ouvir relatos sobre questões de atendimento, unidades básicas de saúde e pensamos em outras estratégias e formas de cuidado sem dar nome, como, por exemplo, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares à Saúde. O chá que a avó fazia, na garrafada, no caminhar pela comunidade, na zumba, na dança, na aromaterapia… Todas essas práticas são práticas de saúde, práticas que são legitimadas pelo SUS, mas que infelizmente esse modelo biomédico hoje ensina a gente a pensar que isso não é produtor de saúde, que a saúde é só o médico e o medicamento”, explica.
A Oficina de Saúde Coletiva contou com uma gama de profissionais engajadas na temática de saúde pública e comunitária, desde psicólogas até assistentes sociais e enfermeiras, abrindo um leque de compreensões sobre as diversas possibilidades de produção de saúde, suas manifestações na sociedade e como isso reflete na qualidade de vida das mulheres. Segundo a pesquisadora e co-fundadora do Instituto Aláfia Social|Casa de Mar, a lyalorixá do Ilé Àse Íyá Àgbá L’odò Omiró, Martha Sales, “o encontro fortalece mulheres na dimensão corpo-mente-espírito. Então, proporcionar um Seminário como esse é de uma riqueza enorme, uma troca abundante de conhecimento e isso é fundamental ”, ressalta.
O espaço formativo também trabalhou a produção de saúde na visão do cuidador e a postura que o profissional da saúde pode tomar frente à prática do acolhimento. Segundo Lidiane Guedes, psicóloga e professora do curso de Medicina na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), falar de corpo-território é pensar também em quem cuida. “Ele é o primeiro território vivo que acolhe a vida do outro. Então, o quanto estamos dispostas e a gente cria essa disponibilidade para a gente se desfazer, se transformar e ser tocado pelo saber que o outro traz. Então, essa rede afetiva de cuidado com as mulheres vem disso e vem também de uma postura contra-colonial, da gente não dar tudo para o outro, da gente não dizer tudo, da gente saber se camuflar, do saber também produzir cuidado nas invisibilidades, do saber mostrar e esconder”, argumenta.
.jpg)
Um dos destaques do Seminário, foi a oficina “Escrita, poesia e rima”, facilitada pela poeta, pedagoga e produtora cultural Sabah. Através da metodologia do Slam - batalhas de poesia - as participantes exercitaram a escrita e a invenção literária a partir de suas histórias. “Dentro das nossas oficinas sempre trazemos referências que a gente se identifica, que falam sobre a nossa história. Para que a gente consiga se enxergar também como uma referência. Então as mulheres que estão aqui presentes são mulheres com histórias muito fortes, são mulheres marisqueiras que fazem essa movimentação nos seus territórios”, destaca.
A última oficina do Seminário abordou o tema “Mulheres e mutações climáticas”; promovendo uma discussão sobre o colapso climático e ambiental em Sergipe, bem como os impactos na vida das mulheres. Para Mariana Santos, professora de geografia e pesquisadora do PEAC, as comunidades tradicionais possuem políticas de cuidado com os territórios que precisam ser observados pela sociedade. “O que falta é a sociedade se atentar para a tragédia climática que estamos vivendo, o que falta é a sociedade, enfim, observar a política que as comunidades tradicionais já fazem. O plantio do arroz agroecológico em Brejão dos Negros, os quintais produtivos das mulheres marisqueiras, a defesa do mangue e a expulsão da mineração dos quilombos , já são lutas que acontecem”, ressalta a pesquisadora.
Tendo em vista a perspectiva da construção coletiva e inclusão efetiva das mulheres no evento, o Seminário teve um espaço para a ciranda infantil composto por cirandeiras das comunidades e equipe técnica do PEAC. A sala da ciranda empenhou-se em desenvolver atividades lúdicas e educativas com as crianças, reconhecendo as riquezas das comunidades, desde cantigas, até brincadeiras e rodas.
De acordo com Clarice Martins, bolsista e pesquisadora do Observatório das Mulheres, as ações foram pensadas para atender as demandas das crianças e criar um espaço formativo. “A gente defende brincar como um ato político, um ato de resistência, de afirmar a existência das crianças enquanto futuro. A gente valorizou elementos do território, as plantas e o saber para além do farmacêutico, um saber ancestral e geracional. Foi um espaço planejado, as atividades foram direcionadas e tudo isso foi um projeto político pedagógico”, explica.
Entre as pessoas envolvidas na construção da ciranda, estavam as cirandeiras formadas nos territórios — mulheres das comunidades que trabalham com a mariscagem e dedicam tempo a pensar as infâncias. Para Naeli Andrade, marisqueira e líder do MMS, participar da ciranda é especial e fortalece laços. “Saber escutar as crianças da comunidade e ver o papel delas é enriquecedor.”, frisa.
A programação contou ainda com o lançamento do livro “Memórias das Águas”, uma coletânea de textos e poemas das marisqueiras de Sergipe. Conectando texto e imagem, o memorial guarda as lembranças e a relação das mulheres com as águas, com o mangue e com o território. Entre fotos, sessão de autógrafos e sorrisos, as marisqueiras celebraram o registro de sua memória. Para Cristiane Dias, momentos como esse fortalecem a trajetória e luta das marisqueiras “ Esse espaço nos traz esperança e nos faz acreditar que estamos no caminho certo, é isso que a gente quer, ter espaço, voz e vez”, ressalta.. As atividades do segundo dia foram finalizadas com uma apresentação cultural do grupo Ela Sambô.
O Seminário foi marcado por arte, formação e expressão. Na tarde do terceiro dia, após o lançamento do livro, as mulheres iniciaram as atividades com a Performance das Marisqueiras, uma apresentação artística na qual elas contam sua trajetória por meio da dança e da música. Na sequência do experimento cênico, deu-se início a roda de conversa: “Lançando a rede para alcançar outros mares”, um diálogo com representantes da rede pública de serviços dos municípios, da câmara e da Universidade, com o intuito de criar pontes entre as marisqueiras e as instâncias públicas da sociedade civil.
A manhã do dia 29 iniciou com a ritualística do grupo Auê, um coletivo cultural de mulheres artistas do Rio Grande do Sul, e a roda de conversa Elances: Nós e os laços criados, uma reflexão sobre tudo que foi provocado, vivido e cultivado no Seminário, juntamente com uma apresentação final das crianças que ilustrou as pinturas, desenhos, instrumentos, brincadeiras com argila e música. Após as rodas e apresentações, o Seminário se encaminhou para o fim, com um almoço celebrativo e retorno para casa.
A realização do PEAC é uma medida de mitigação exigida pelo licenciamento ambiental federal, conduzida pelo IBAMA.
O Programa de Educação Ambiental com Comunidades Costeiras (PEAC) incentiva o fortalecimento dos Territórios de vida dos Povos e Comunidades Tradicionais. A realização do PEAC é uma exigência do licenciamento ambiental federal, conduzido pelo Ibama.